28 junho 2010

O CÉU DO PAI NOSSO


por Oliveira Fidelis Filho - fidelisf@hotmail.com




"Pai nosso, que estás nos céus..." Jesus






O caminho para o céu cristão sofreu alterações significativas nestes últimos dois mil anos.

Receitas para se chegar ao cobiçado destino - cobiçado, mas prorrogável a qualquer custo - assemelham-se a sugestões para a cura de resfriado; vão desde chazinho de folha de laranja até injeção de benzetacil.

Uns vão para o céu de asa delta - ultraleves - outros, puxando uma "carroça" sobrecarregada de culpa, medo, legalismo e neuroses - ultrapesados.

Para uns, o céu é lá no céu, seja lá onde for isso, para outros o céu é aqui mesmo. Para esses, "aceitar Jesus" é preciso, para garantir saúde, ficar fora do alcance do capeta e ficar rico.

O céu estará garantido desde que você frequente assiduamente uma determinada igreja, seja um criterioso dizimista, além de um ofertante generoso, sempre disposto a reagir prontamente e com alegria às investidas dos homens/mulheres "de Deus", ávidos por exorcizar de sua carteira o já escandalosamente tributado dim-dim.

Há também aqueles para os quais o céu funciona como um ópio, gerando alienação em relação à vida aqui e agora. São os que "não são deste mundo". Para estes, a corrupção, a violência, as injustiças sociais, a fome de milhares, o desrespeito ao Planeta, os abismos sociais, financeiros, educacionais, não lhe dizem respeito. Mas se alguém procura aprovar uma lei que favoreça homossexuais, ou outro grupo estigmatizado em consequência de crenças e comportamentos que não se enquadrem no formato de sua moral e éticas religiosas, ficam todos exaltados, amedrontados, prontos para mais uma guerra santa.

Já que cada um tem o céu que merece, ou que não merece, sinto-me encorajado a descrever o céu que procuro fazer por merecer. Não que eu não me sinta, de quando em vez, um imerecido e sortudo eleito por Deus; é que precaução e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Quando me vejo encurralado entre o calvinismo e o arminianismo, sou levado a adotar a sabedoria do meu amado Mestre Jesus: "Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus".

Em primeiro lugar, o meu céu é o do Pai nosso, do Pai nosso que está no céu. Para Jesus, e para mim também, Deus mora no céu e não no inferno, é o Senhor do Amor e não da guerra. É o Deus da Justiça, da Paz e da alegria; onde estas coisas coexistem é possível encontrá-Lo para uma boa prosa.

Em segundo lugar, dada a dificuldade em determinar a localização, entendo ser melhor trabalhar na construção do meu próprio céu.

Considerando que está ficando cada vez mais caro obter o céu, além do espaço cada vez mais reduzido com a explosão demográfica e com o exorbitante preço de cada metro quadrado onde moro, resolvi construir o céu dentro de mim mesmo. Para isso, invisto na limpeza de meus pensamentos e sentimentos, na minha saúde física, mental, emocional e relacional. Todo dia busco expandir meu coração para que possa ficar mais estufadinho de amor, esperança e fé.

Sei que muitos esperam que Deus construa um céu para eles; quanto a mim, gosto da idéia de construir um céu e convidar Deus para vir morar nele.

O bom de se construir um céu dentro da gente é que podemos levá-lo para todo lugar...

Passo um bom tempo orando, meditando e silenciando meu ser, objetivando construir um céu cada vez mais agradável. Faço isso pois cheguei à conclusão de que Deus se parece com abelhas, ou seja, é só a gente plantar um jardim que elas vêm para partilhar e fecundar.

E mais, sei que buscando iluminar minha inteligência com Sabedoria divina, expandir meu coração com sentimentos maiores - misericórdia, compaixão, bondade, perdão, mansidão, alegria, paz - posso ficar sossegado, pois o inferno não vai me querer, nem nesta vida nem na outra. Pessoas que vivem assim não interessam ao inferno, atrapalham os negócios por lá.

Portanto, continuarei a cuidar do meu jardim, meu céu interno; se por um descuido acontecer de colocarem o endereço errado, e eu acabar sendo entregue no inferno, não vou esquentar muito pois vão me devolver para o céu, mesmo que para isso me crucifiquem. Acho que isso já aconteceu antes...

Ah! Ia me esquecendo: quanto ao céu lá do céu, aviso que desfilo no bloco daqueles para os quais "o céu pode esperar". Afinal, eu não tenho medo de morrer, tenho é dó!