10 setembro 2010

João Antunes de Moura (1849-1928)



Ao longo da sua história, a Igreja Presbiteriana do Brasil tem contado com a atuação de muitos presbíteros valorosos, cujas contribuições estendem-se muito além dos limites de suas igrejas locais. Um exemplo pouco conhecido é o do presbítero João Antunes de Moura, da Igreja Presbiteriana dede São Paulo. Itapeva, no sul do Estado


O fundador da Igreja de Itapeva, então denominada Faxina, foi o Rev. Antônio Pedro de Cerqueira Leite (1845-1883), um dos primeiros pastores presbiterianos do Brasil. Desde a sua licenciatura, em 1873, até o seu falecimento dez anos depois, ele esteve à frente da Igreja de Sorocaba e pastoreou todo o campo sul-paulista, até a divisa com o Paraná. Sua primeira visita à vila de Faxina ocorreu quando ainda era licenciado, em 1875. Quatro anos mais tarde, no dia 4 de maio de 1879, foi organizada a igreja presbiteriana. Uma das primeiras famílias que integraram a nova comunidade evangélica foi a família Moura.

João Antunes de Moura nasceu em Campo Largo de Sorocaba em 4 de agosto de 1849, sendo seus pais Rafael Tobias Antunes e Rita Antunes. No dia 10 de abril de 1875, casou-se em Itapeva com Elisa Isabel Loureiro Chrischner David Müzel, que após o casamento passou a assinar simplesmente Elisa de Moura. O casal teve treze filhos: Frederico, Urias, Ozias, Judite (falecida na infância), Abiael, Noemi (falecida na infância),  Uriel, Elísio, Ciro, Noemi, Elmiro, Gade e Joel, nascidos entre 1876 e 1901. Abiael, nascida em 1883, foi esposa do Rev. Baldomero Garcia e Uriel foi um valoroso pastor. “Seu Moura”, como era conhecido pelo povo, era considerado médico, tendo cursado o 4º ano de medicina. Tinha também conhecimentos de botânica, agricultura, matemática e outros assuntos. Grande evangelista, ainda jovem penetrou o interior da então Província do Paraná, com suas canastras carregadas de Bíblias e livros evangélicos, tendo como meio de transporte o lombo dos burros.

Em sua obra História da Igreja Presbiteriana do Brasil, o Rev. Júlio Andrade Ferreira transcreveu informações colhidas do antigo periódico Brazilian Missions (número de outubro de 1888): “Foi em 1878 que o Sr. Moura, presbítero de Faxina, entrou no Paraná como colportor. Visitou, com êxito, a cidade de Guarapuava, levando um animal carregado de Bíblias e Novos Testamentos. Encontrara poucos que quisessem comprar a Verdade. Como não desejasse fazer a longa viagem de volta com toda a carga, vendeu-a a um negociante que achou os livros muito baratos, a julgar pelo papel e pela encadernação. Depois de servir um freguês, ele abria a Bíblia, lia um trecho, em Salmos, em Jó, e perguntava: ‘Não é bonito, amigo?’ O interlocutor geralmente respondia: ‘Muito bonito. Por quanto vende esse livro?’ ‘Oh’, dizia o negociante, ‘muito barato; um belo livro desses, com esse papel e essa encadernação, custa apenas seis mil réis [= três dólares na época]; e a leitura é agradável, como você vê’”.

Nos anos seguintes, Moura realizou muitas outras viagens de colportagem ao Paraná. Nessas viagens, ele e seus companheiros vendiam Bíblias, distribuíam folhetos, realizavam cultos e ensinavam hinos. Em meados de 1884, acompanhou o Rev. Robert Lenington, primeiro pastor presbiteriano a atuar naquele estado, na primeira viagem deste ao Paraná. Moura e o colega Antônio Pinheiro de Carvalho visitaram a vila de Tibagi e a localidade de Fundão, no município de Piraí do Sul. No final do ano, Lenington organizou nesses locais as duas primeiras igrejas presbiterianas do Paraná. A Igreja de Guarapuava foi organizada poucos anos depois, em 17 de fevereiro de 1889, pelo Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa.

Moura foi eleito presbítero da Igreja de Itapeva no dia 4 de junho de 1883, aos 34 anos de idade, vindo a exercer esse ofício durante 45 anos. Como tal, foi ativo participante dos antigos concílios da Igreja Presbiteriana do Brasil, tendo comparecido a muitas de suas reuniões. O primeiro encontro importante a que compareceu foi a 4ª reunião do Sínodo Presbiteriano, realizada nos dias 1º a 13 de julho de 1897 na 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo. Na ocasião, participou das grandes discussões que abalavam a igreja nacional e votou a favor da famosa “Moção Smith”, que defendia a prioridade da evangelização sobre a educação.

Outra reunião importante de que participou, como representante do antigo Presbitério de São Paulo, foi a organização da Assembléia Geral da IPB, ocorrida no Rio de Janeiro em janeiro de 1910. Foi apresentado ao concílio pelo Rev. Robert Daffin, moderador do seu presbitério, tomando assento no dia 8 de janeiro. Mediante nomeação, fez parte da Comissão de Atas do Sínodo, ao lado dos Revs. Thomas J. Porter e Alberto Zanon. Participou também da 2ª reunião da Assembléia Geral, realizada na mesma cidade, de 10 a 18 de janeiro de 1912, ocasião em que foi comemorado o jubileu do presbiterianismo no Brasil (cinqüentenário da organização da Igreja do Rio de Janeiro). Outra reunião do concílio maior da IPB a que compareceu foi a reunião da Assembléia Geral em Botucatu, nos dias 11 a 19 de janeiro de 1920, tendo integrado as comissões Judiciária e de Estado Religioso. Sua figura simpática e elegante pode ser vista nas fotos da época. 

 7º PREFEITO DE ITAPEVA
O “coronel” João Antunes de Moura também foi um homem público na sua região, tendo sido eleito vereador e mais tarde prefeito municipal de Itapeva (1911-1913). Por sua vez, Dona Elisa de Moura foi a primeira presidente da Sociedade de Senhoras da Igreja de Itapeva, criada no dia 12 de outubro de 1912. Em 1913 ou 1914, a família mudou-se para o distrito de Faxinal, onde, além da residência, foi construído um pequeno templo de madeira. Os trabalhos da congregação eram dirigidos pelo presbítero Moura. Um dos seus filhos, o Rev. Uriel Antunes de Moura (26/10/1888—09/07/1981), seguiu as pegadas do pai tanto como médico prático quanto como evangelista. Ordenado em 1920 e jubilado em 1948, pastoreou todas as igrejas do antigo Presbitério de Itapetininga, mantendo-se em atividade até 1976. Seu neto Ner de Moura, filho de Urias de Moura e nascido em 1915, foi pastor da Igreja Presbiteriana Independente e da Igreja Presbiteriana Renovada. Ainda vive na cidade de Itapeva.

O presbítero João Antunes de Moura faleceu em Itapeva no dia 8 de janeiro de 1928, tendo oficiado no seu sepultamento os Revs. João Paulo de Camargo e Henrique de Oliveira Camargo. Deixou 56 netos e 6 bisnetos, sendo inúmeros os seus atuais descendentes. Durante a sua vida, a Igreja de Itapeva teve os seguintes pastores: Antônio Pedro de Cerqueira Leite (1875-1883), Zacarias de Miranda (1883-1896), Francisco Lotufo (1897), Franklin do Nascimento (1898-1901), Salomão Ferraz (1902-1905), Júlio Sanguinetti (1906-1911), Robert Daffin (1912-1916), João Paulo de Camargo (1917-1927) e Henrique de Camargo (1928-1930). 

O templo da 2ª Igreja Presbiteriana de Itapeva, situado no Jardim Maringá, está localizado na rua Cel. Joãode Moura, Antunes e na mesma rua se encontra a Escola Estadual Jeminiano David Müzel, seu genro. Por seu trabalho pioneiro como evangelista e colportor, seus valiosos serviços à igreja e à comunidade, e seu exemplo como pai de família e cidadão, o presbítero João Antunes de Moura tem um lugar de honra nos anais do presbiterianismo no Brasil.


Por 
Alderi Souza de Matos
Pastor e Historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil
TEXTO RETIRADO DO PORTAL  MACKENZIE 
No site da Igreja Presbiteriana de Curitiba também encontram-se informações sobre 
o Sr. João Antunes de Moura.